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  • Foto do escritorFábio Malavoglia

Episódio 53 - Esplendor e Trevas

Textos do Episódio

 

Fernando Pessoa Guardo ainda, como um pasmo Guardo ainda, como um pasmo

Em que a infância sobrevive,

Metade do entusiasmo

Que tenho porque já tive.


Quase às vezes me envergonho

De crer tanto em que não creio.

É uma espécie de sonho

Com a realidade ao meio.


Girassol do falso agrado

Em torno do centro mudo

Fala, amarelo, pasmado

Do negro centro que é tudo.

 

Dante Alighieri Inferno, Canto 1: 1-3 “Nel mezzo del cammin di nostra vita Mi ritrovai per una selva oscura Che la diritta via era smarrita” *** Dante Alighieri Inferno, Canto 1: 1-3 tradução de José Pedro Xavier Pinheiro Da nossa vida, em meio da jornada,

Achei-me numa selva tenebrosa,

Tendo perdido a verdadeira estrada.

 

William Blake from Songs Of Experience / The Tyger Tyger! Tyger! burning bright In the forests of the night, What immortal hand or eye Could frame thy fearful symmetry? In what distant deeps or skies Burnt the fire of thine eyes? On what wings dare he aspire? What the hand dare sieze the fire? And what shoulder, & what art. Could twist the sinews of thy heart? And when thy heart began to beat, What dread hand? & what dread feet? What the hammer? what the chain? In what furnace was thy brain? What the anvil? what dread grasp Dare its deadly terrors clasp? When the stars threw down their spears, And watered heaven with their tears, Did he smile his work to see? Did he who made the Lamb make thee? Tyger! Tyger! burning bright In the forests of the night, What immortal hand or eye Dare frame thy fearful symmetry? *** William Blake das Canções da Experiência / O Tygre tradução Fabio Malavoglia Tygre! Tygre! raio ardente, na selva noturnamente, Qual eterna mão que havia Fez feroz tua simetria? De qual fundo abismo ou céu soprou a chama no olho teu? Em qual asa ousou subir? Em qual mão tal tocha a vir? Qual suporte, e quanta arte pôde os nervos entroncar-te? Que espantoso muque ou mão Acordou a tambor teu coração? Qual martelo? Qual corrente? Qual fornalha fez tua mente? Qual bigorna ou mando atroz letais lâminas te impôs? Quando estrelas lancinantes luz choraram nos céus d’antes, Quem te fez, sorriu a olhar-te? E ao Cordeiro fez destarte? Tygre! Tygre! raio ardente, na selva noturnamente, Qual eterna mão que havia Fez feroz tua simetria?

 

Giovanni Pascoli il lampo

E cielo e terra si mostrò qual era:


la terra ansante, livida, in sussulto;

il cielo ingombro, tragico, disfatto:

bianca bianca nel tacito tumulto

una casa apparì sparì d’un tratto;

come un occhio, che, largo, esterrefatto,

s’aprì si chiuse, nella notte nera. *** Giovanni Pascoli Relâmpago tradução de Fabio Malavoglia

E céu e terra numa silhueta: terra ofegante, lívida, num vulto; o céu de estorvo, trágico, ferido: branca branca no tácito tumulto uma casa surgiu num átimo sumido; como um olho que largo, estarrecido, abriu fechou, dentro da noite preta.

 

Giovanni Pascoli Sapienza

Sali pensoso la romita altura

ove ha il suo nido l’aquila e il torrente,

e centro della lontananza oscura

sta, sapïente.


Oh! scruta intorno gl’ignorati abissi:

più ti va lungi l’occhio del pensiero,

più presso viene quello che tu fissi:

ombra e mistero. *** Giovanni Pascoli Sapiência tradução de Fabio Malavoglia

Subi absorto para a erma altura

onde fazem ninho a águia e a torrente,

e o centro de uma distância escura

jaz, sapïente.


Ah! busca as profundidades inauditas:

mais longe vai o teu olhar etéreo,

mais perto vem aquilo que tu fitas:

sombra e mistério.


 

Garsilaso de la Vega Soneto XXXVIII

Estoy continuo en lágrimas bañado,

rompiendo el aire siempre con sospiros;

y más me duele el no osar deciros

que he llegado por vos a tal estado;


que viéndome do estoy, y lo que he andado

por el camino estrecho de seguiros,

si me quiero tornar para huiros,

desmayo, viendo atrás lo que he dejado;


y si quiero subir a la alta cumbre,

a cada paso espántanme en la vía,

ejemplos tristes de los que han caído.


sobre todo, me falta ya la lumbre

de la esperanza, con que andar solía

por la oscura región de vuestro olvido. *** Garcillaso de La Vega Soneto XXXVIII tradução de Fabio Malavoglia Sigo sem pausa em lágrimas banhado,

sempre a cortar o ar com um suspiro;

por não ousar dizer-vos mais me firo

que só por vós cheguei a tal estado;


pois vendo aonde estou, e o já andado

pelo caminho estreito a vos seguir,

se tento retornar para de vós fugir,

desmaio, vendo atrás o que hei deixado;


e se quero subir ao alto cume,

a cada passo espantam-me na via,

exemplos tristes dos ali caídos,


sobretudo o que me falta é o lume

da esperança, com que andar soia

pela escura região do vosso olvido.

 

Olavo Bilac Dentro da Noite (fragmento)

O Amor, que a teu lado levas,

A que lugar te conduz,

Que entras coberto de trevas,

E sais coberto de luz?

 

Mário Quintana Encontro Era uma dessas mulheres que não se usam mais.

Vestes de trevas e vidrilhos.

Cabeleira trágica.

Olheiras suspeitas.

O grito horizontal da boca.

Surgiu da noite.

Sumiu pela última porta do poema.

 

Jorge de Lima dos “Poemas Negros” Essa Negra Fulô Ora, se deu que chegou

(isso já faz muito tempo)

no bangüê dum meu avô

uma negra bonitinha,

chamada negra Fulô.


Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!


Ó Fulô! Ó Fulô!

(Era a fala da Sinhá)

— Vai forrar a minha cama

pentear os meus cabelos,

vem ajudar a tirar

a minha roupa, Fulô!


Essa negra Fulô!


Essa negrinha Fulô!

ficou logo pra mucama

pra vigiar a Sinhá,

pra engomar pro Sinhô!


Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!


Ó Fulô! Ó Fulô!

(Era a fala da Sinhá)

vem me ajudar, ó Fulô,

vem abanar o meu corpo

que eu estou suada, Fulô!

vem coçar minha coceira,

vem me catar cafuné,

vem balançar minha rede,

vem me contar uma história,

que eu estou com sono, Fulô!


Essa negra Fulô!


"Era um dia uma princesa

que vivia num castelo

que possuía um vestido

com os peixinhos do mar.

Entrou na perna dum pato

saiu na perna dum pinto

o Rei-Sinhô me mandou

que vos contasse mais cinco".


Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!


Ó Fulô! Ó Fulô!

Vai botar para dormir

esses meninos, Fulô!

"minha mãe me penteou

minha madrasta me enterrou

pelos figos da figueira

que o Sabiá beliscou".


Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!


Ó Fulô! Ó Fulô!

(Era a fala da Sinhá

Chamando a negra Fulô!)

Cadê meu frasco de cheiro

Que teu Sinhô me mandou?

— Ah! Foi você que roubou!

Ah! Foi você que roubou!


Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!


O Sinhô foi ver a negra

levar couro do feitor.

A negra tirou a roupa,

O Sinhô disse: Fulô!

(A vista se escureceu

que nem a negra Fulô).


Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!


Ó Fulô! Ó Fulô!

Cadê meu lenço de rendas,

Cadê meu cinto, meu broche,

Cadê o meu terço de ouro

que teu Sinhô me mandou?

Ah! foi você que roubou!

Ah! foi você que roubou!


Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!


O Sinhô foi açoitar

sozinho a negra Fulô.

A negra tirou a saia

e tirou o cabeção,

de dentro dêle pulou

nuinha a negra Fulô.


Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!


Ó Fulô! Ó Fulô!

Cadê, cadê teu Sinhô

que Nosso Senhor me mandou?

Ah! Foi você que roubou,

foi você, negra fulô?


Essa negra Fulô!

 

Leopoldo Lugones La tarde clara En el jagüel, más trémulo, la rana

Repercute sus teclas cristalinas.

La noche, por detrás de las colinas,

Su ala de torvo azul tiende cercana.

No acaban de decir "hasta mañana",

Locas de inmensidad las golondrinas... ***

Leopoldo Lugones A tarde clara tradução de Fabio Malavoglia No pântano, mais trêmulo, uma rã

Repercute suas teclas cristalinas.

A noite, por detrás dessas colinas,

Sua asa de turvo azul tende anfitriã.

Mal terminam de dizer "até amanhã",

Loucas de céu as andorinhas divinas...

 

Fabio Malavoglia Memorando Aposento

alto

no abismo habitado,

se debruça

falto

da quarta parede,

sobre o furo

poço

de feito futuro,

puro escuro

salto

no Quinto Elemento.

 


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