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  • Foto do escritorFábio Malavoglia

Episódio 39

DA VIDA

Textos do Episódio

 

Manuel Bandeira Brisa Vamos viver no Nordeste, Anarina.

Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.

Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.

Aqui faz muito calor.

No Nordeste faz calor também.

Mas lá tem brisa:

Vamos viver de brisa, Anarina.

 

João de Deus A Vida A vida é o dia de hoje, a vida é ai que mal soa, a vida é sombra que foge, a vida é nuvem que voa; a vida é sonho tão leve que se desfaz como a neve e como o fumo se esvai:

A vida dura um momento, mais leve que o pensamento, a vida leva-a o vento, a vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente, a vida é sopro suave, a vida é estrela cadente, voa mais leve que a ave:

Nuvem que o vento nos ares, onda que o vento nos mares uma após outra lançou, a vida – pena caída da asa de ave ferida - de vale em vale impelida, a vida o vento a levou!

 

Mário Quintana Canção do Dia de Sempre

Tão bom viver dia a dia...

A vida assim, jamais cansa...


Viver tão só de momentos

Como estas nuvens no céu...


E só ganhar, toda a vida,

Inexperiência... esperança...


E a rosa louca dos ventos

Presa à copa do chapéu.


Nunca dês um nome a um rio:

Sempre é outro rio a passar.


Nada jamais continua,

Tudo vai recomeçar!


E sem nenhuma lembrança

Das outras vezes perdidas,

Atiro a rosa do sonho

Nas tuas mãos distraídas...

 

Antônio Gedeão Pedra Filosofal Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer, como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso, como este ribeiro manso em serenos sobressaltos, como estes pinheiros altos que em verde e oiro se agitam, como estas aves que gritam em bebedeiras de azul.


Eles não sabem que o sonho é vinho, é espuma, é fermento, bichinho álacre e sedento, de focinho pontiagudo, que fossa através de tudo num perpétuo movimento.


Eles não sabem que o sonho é tela, é cor, é pincel, base, fuste, capitel, arco em ogiva, vitral, pináculo de catedral, contraponto, sinfonia, máscara grega, magia, que é retorta de alquimista, mapa do mundo distante, rosa-dos-ventos, Infante, caravela quinhentista, que é Cabo da Boa Esperança, ouro, canela, marfim, florete de espadachim, bastidor, passo de dança, Colombina e Arlequim, passarola voadora, para-raios, locomotiva, barco de proa festiva, alto-forno, geradora, cisão do átomo, radar, ultrassom, televisão, desembarque em foguetão na superfície lunar.


Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida. Que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança.


 

João Guimarães Rosa de Grande Sertão: Veredas O correr da vida... O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito – por coragem. Será? Era o que eu às vezes achava. Ao clarear do dia.


 

João Guimarães Rosa de Grande Sertão: Veredas Canção de Siruiz Urubu é vila alta

Mais idosa do sertão

Padroeira minha vida

Vim de lá, volto mais não

Corro os dias nesses verdes

Meu boi mocho baetão

Buriti, água azulada

Carnaúba, sal do chão

Remanso de rio largo

Viola da solidão

Quando vou pra dar batalha

Convido meu coração


 

Luiz de Camões da “Carta de Ceuta” redondilha

Pois somente nos é dada

para que ganhemos nela

o que sabemos.

Se se gasta mal gastada,

juntamente com perdê-la,

nos perdemos.


 

Luiz de Camões da “Carta de Ceuta” redondilhas

ponderemos e vejamos que ganhamos em viver os que nascemos: veremos que não ganhamos senão algum bem fazer, se o fazemos.


E, por isso, respeitando

que o porvir tal será, entesouremos; porque [ao certo] não sabemos quando a morte pedirá que lhe paguemos.


 

Luiz de Camões da “Carta de Ceuta” redondilhas E pois todos isto temos, Não nos engane a riqueza, por que tanto esmorecemos, e traz que vamos; já que temos por certeza que quando mais a queremos, a deixamos.


Gastamos em alcançá-la

a vida; e quando queremos

usar dela, nos tira a morte lográ-la;

assim que a Deus perdemos,

e a ela.






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