• Fábio Malavoglia

Episódio 31

O conto da Lua e do NHAQUE Textos do Episódio

 

LUA E NHAQUE

de Ítalo Calvino

(de “I Racconti”, Editora Einaudi),

tradução ao português de Fabio Malavoglia A noite durava vinte segundos, e vinte segundos o NHAQUE. Por vinte segundos via-se o céu azul e listrado de nuvens negras, a foice da lua crescente dourada, sublinhada por um halo impalpável, e depois as estrelas que quanto mais olhadas mais se adensavam em sua tocante pequenez, até a poeira da Via Láctea, tudo isso visto rápido rápido, pois deter-se em algum detalhe era perder algo do conjunto, porque os vinte segundos acabavam num instante e começava o NHAQUE.


O NHAQUE era uma parte do luminoso publicitário SPAAK-CONHAQUE no telhado em frente, que ficava vinte segundos aceso e vinte apagado, e quando estava aceso não se via mais nada. A lua repentinamente empalidecia, o céu tornava-se uniformemente negro e chapado, as estrelas perdiam o brilho, e os gatos e gatas que há dez segundos lançavam miados de amor movendo-se lânguidos um ao encontro do outro ao longo das calhas e dos arremates, agora, com o CONHAQUE, aquietavam-se sobre as telhas com os pelos eriçados, na fosforescente luz de néon.


Debruçada na água-furtada na qual morava, a família de Marcovaldo era tomada por correntes opostas de idéias. Chegava a noite e Isolina, com seus dezoito anos, sentia-se transportada por um clarão de lua, seu coração derretia e até o mais rouco grasnar de rádio dos andares abaixo vinha a seus ouvidos como os acordes de uma serenata; chegava o NHAQUE e aquela rádio parecia tomar outro ritmo, um ritmo de jazz, e Isolina espreguiçava-se na roupinha apertada e pensava nos “dancings” iluminados e ela coitadinha sozinha lá encima. Daniel e Miguelzinho, com oito e seis anos, esbugalhavam os olhos na noite e se deixavam invadir pelo medo macio e quente de estarem cercados por florestas cheias de bandidos; depois o NHAQUE!, e disparavam com os polegares para cima e os indicadores em riste, um contra o outro: - Mãos ao alto! Sou Superman! - Domitila, a mãe, a cada apagar-se da noite pensava: “Agora esses meninos tem que se recolher, esse ar pode fazer mal. E Isolina debruçada na janela a essa hora é coisa que não fica bem”. Mas em seguida tudo ficava de novo luminoso, elétrico, fora como dentro, e Domitila sentia-se como se estivesse de visita na casa de alguém importante.


Por seu turno Flordelis, garotão de quinze anos precocemente desenvolvido, via, a cada vez que se apagava o NHAQUE, aparecer, por trás da curva do “quê”, a janelinha mal iluminada de outra água-furtada e, por trás do vidro, um rosto de moça da cor da lua, uma boca quase ainda de menina que assim que ele lhe sorria entreabria-se imperceptivelmente e já parecia alargar-se num sorriso quando, de repente, da escuridão relampejava aquele impiedoso “quê” do NHAQUE e o rosto perdia os contornos, transformava-se numa fraca sombra clara, e da boca menina não se sabia mais se tinha respondido ao seu sorriso.


No meio dessa tempestade de paixões Marcovaldo tentava ensinar aos filhotes as posições dos corpos celestes.


- Aquela é a Ursa Maior, um dois três quatro e lá a ponta; aquela é a Ursa Menor, e a Estrela Polar mostra o Norte.


- E aquela outra, mostra o que ?


- Aquela mostra “u”. E não tem nada a ver com as estrelas. É a penúltima letra da palavra CONHAQUE. As estrelas ao contrário mostram os pontos cardeais. Norte Sul Leste Oeste. A lua está com a corcunda para o Oeste. Corcunda no poente, lua crescente. Corcunda no nascente, lua minguante.


- Então, papai, o conhaque está minguante ? O “quê” tem a corcunda no nascente...


- Não tem nada a ver crescente ou minguante nesse caso! É uma palavra colocada lá pela firma Spaak.


- E a lua, que firma pôs ela lá ?


- A lua não foi colocada por uma firma. É um satélite, está sempre lá.


- Se está sempre lá porque muda a corcunda ?


- São as fases. A gente só vê um pedaço.


- Do CONHAQUE a gente também só vê um pedaço.


- Por causa do teto do prédio Zébernardos que é mais alto.


- Mais alto que a lua ?


E assim, a cada acender-se do NHAQUE, os astros de Marcovaldo iam se confundir com os comércios terrestres, e Isolina transformava um suspiro no arfar de um “mambo” cantarolado, e a garota da água-furtada desaparecia naquele anel ofuscante e frio, escondia sua resposta ao beijo que Flordelis tinha finalmente tido a coragem de lhe mandar na ponta dos dedos, e Daniel e Miguelzinho com os punhos na frente do rosto brincavam de metralhamento aéreo - Ta-ta-ta-tá... - contra o anúncio luminoso que, depois de vinte segundos, se apagava.


- Tá-tá-tá.... viu, papai ? Apaguei o anúncio com uma só rajada! - disse Daniel, mas já fora da luz do néon seu fanatismo guerreiro tinha sumido e seus olhos se enchiam de sono.


- Seria bom - fugiu da boca do pai - que se espatifasse! Mostraria a vocês o Leão, os Gêmeos...


- O Leão! - Miguelzinho foi tomado pelo entusiasmo - ‘Pera aí! - Ele tinha uma idéia. Pegou o estilingue, carregou-o com o cascalho do qual sempre tinha no bolso uma reserva e disparou em leque as pedrinhas, com toda a força, contra o NHAQUE.


Ouviu-se aquele granizo cair espalhado sobre as telhas do teto, sobre as chapas do beiral, o tilintar dos vidros de uma janela atingida, o “gong” de uma pedrinha caindo lá embaixo sobre a aba de metal de um semáforo, uma voz na rua: - ‘Tão chovendo pedras! Ei, aí de cima, seus cretinos! - Mas o anúncio luminoso exatamente no momento do disparo tinha se apagado devido ao fim de seus segundos. E todos na água-furtada começaram mentalmente a contar: um dois três, dez onze, até vinte. Contaram dezenove, respiraram fundo, contaram vinte, contaram vinte e um vinte e dois no temor de ter contado rápido demais, mas não, nada, o NHAQUE não reaparecia, permanecia o escuro rabisco mal decifrável entrelaçado em sua armação de sustento como a vide na parreira - Aaah! - gritaram todos, e o manto do céu ergueu-se infinitamente estrelado sobre eles.


Marcovaldo, paralisado com a mão erguida no safanão que ia dar em Miguelzinho sentiu-se projetado no espaço. A escuridão que agora reinava nas alturas dos telhados criava como uma barreira obscura que excluía o mundo lá embaixo aonde continuavam a turbilhonar hieróglifos amarelos e verdes e vermelhos, e piscantes olhos de semáforos e o luminoso navegar de bondes vazios, e os automóveis invisíveis que empurram diante deles o cone de luz dos faróis. Desse mundo não subia lá para cima mais que uma difusa luminescência, vaga como a fumaça. E ao erguer o olhar não mais ofuscado, abria-se a perspectiva dos espaços, as constelações dilatavam-se em profundidade, o firmamento girava na amplidão e somente um adelgaçar de sua trama, como uma brecha, abria-se para Vênus para destacá-la só, acima da moldura da Terra, como uma firme ferida de luz explodida e concentrada num único ponto.


Suspensa neste céu, a lua nova ao invés de ostentar a abstrata aparência de meia-lua revelava sua natureza de esfera opaca iluminada nas margens pelos oblíquos raios de um sol perdido pela Terra mas que mesmo assim conservava - como se pode ver somente em certas noites de plena primavera - seu quente calor. E Marcovaldo olhando aquela estreita margem de lua recortada ali entre a sombra e a luz sentia uma nostalgia como a de alcançar uma praia que tivesse persistido miraculosamente ensolarada na noite.


Assim permaneciam debruçados na água-furtada, as crianças assustadas pelas desmedidas conseqüências do seu ato, Isolina raptada como em êxtase, Flordelis que, único entre os demais, percebia a janela iluminada e finalmente o sorriso lunar da garota. A mãe sacudiu-se - Vamos, vamos, é tarde, o que vocês estão fazendo aí debruçados ? Vão ficar doentes debaixo dessa lua!


Miguelzinho apontou o estilingue para cima - E eu apago a lua! - Foi agarrado e posto na cama.


Assim, pelo resto daquela e por toda a noite seguinte, o anúncio luminoso no telhado em frente dizia apenas SPAAK-CO e da água-furtada de Marcovaldo via-se o firmamento. Flordelis e a garota lunar mandavam-se beijos na ponta dos dedos e talvez na linguagem dos surdos-mudos conseguissem marcar um encontro.


Mas na manhã do segundo dia, no teto, entre as armações do anúncio luminoso recortavam-se tênues as figuras de dois eletricistas de macacão, verificando tubos e fios. Com o jeito de velhos que prevêem que tempo vai fazer Marcovaldo pôs o nariz para fora e disse: - Hoje vamos ter de novo uma noite de NHAQUE.


Alguém batia à porta. Abriram. Era um senhor de óculos - Desculpem, poderia dar uma olhada pela janela de vocês? Obrigado - e apresentou-se: - Doutor Godofredo, agente de anúncios luminosos.


“Estamos arruinados! Querem que a gente pague os prejuízos!” - pensou Marcovaldo, e já comia os filhos com os olhos, esquecido de seus êxtases astronômicos: - “Agora vai olhar pela janela e vai entender que as pedras só podem ter sido atiradas daqui”. Tentou adiantar-se: - O senhor sabe, são garotos, e atiram assim, nos passarinhos, pedrinhas, não faço idéia como aquele anúncio da Spaak quebrou. Mas eu os castiguei, ah sim, castiguei. E pode estar certo que isso não vai se repetir.


O doutor Godofredo fez cara de quem presta atenção - Para falar a verdade eu trabalho para a “Conhaque Tomawak” e não para a “Spaak”. Vim aqui para estudar a possibilidade de colocar um luminoso no seu telhado. Mas me conte, conte assim mesmo, porque isso me interessa.


E foi assim que Marcovaldo, meia hora depois, concluía um contrato com a “Conhaque Tomawak”, a principal concorrente da “Spaak”. Os meninos deveriam usar o estilingue contra o NHAQUE toda vez que o anúncio fosse reativado.


- Deve ser a gota que faz o vaso transbordar - disse o doutor Godofredo. Não se enganou: já à beira da falência devido à manutenção de grandes despesas com publicidade, a “Spaak” viu os contínuos estragos em seu mais bonito luminoso como um mau agouro. O anúncio, que ora dizia NHAUE ora NHAQE ora NAQUE, espalhava entre os credores a idéia de um desentendimento; a certa altura a agência publicitária recusou-se a fazer novos reparos se não fossem pagos os atrasados, o anúncio apagado fez crescer o alarme entre os credores; a “Spaak” faliu.


No céu de Marcovaldo a lua cheia se arredondava em todo seu esplendor...


Estava na última fase quando os eletricistas voltaram a subir no telhado em frente. E naquela noite, em letras de fogo, letras que eram o dobro de antes em altura e espessura, lia-se CONHAQUE TOMAWAK, e não havia mais lua nem céu nem noite, somente CONHAQUE TOMAWAK, CONHAQUE TOMAWAK, CONHAQUE TOMAWAK que acendia e apagava a cada dois segundos.


O mais atingido de todos foi Flordelis: a água-furtada da garota lunar tinha desaparecido atrás de um enorme, impenetrável “dabliú”.




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