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  • Foto do escritorFábio Malavoglia

Ep. 60 - Das Palavras

Textos do Episódio

................................................................... Cecília Meireles Ai, palavras Ai, palavras, ai palavras,

que estranha potência, a vossa!

Ai, palavras, ai palavras,

sois o vento, ides no vento,

e, em tão rápida existência,

tudo se forma e transforma!

Sois de vento, ides no vento,

e quedais, com sorte nova!

Todo o sentido da vida

principia à vossa porta;

o mel do amor cristaliza

seu perfume em vossa rosa;

sois o sonho e sois audácia,

calúnia, fúria, derrota…

A liberdade das almas,

ai! com letras se elabora…

E dos venenos humanos

sois a mais fina retorta:

frágil, frágil como o vidro

e mais que o aço poderosa!

Reis, impérios, povos, tempos,

pelo vosso impulso rodam…

.................................................................... Carlos Drummond de Andrade A palavra Já não quero dicionários

consultados em vão.

Quero só a palavra

que nunca estará neles

nem se pode inventar.


Que resumiria o mundo

e o substituiria.

Mais sol do que o sol,

dentro da qual vivêssemos

todos em comunhão,

mudos,

saboreando-a. .....................................................................

Paulo Leminski até mais

Até tu, matéria bruta,

até tu, madeira, massa e músculo,

vodka, fígado e soluço,

luz de vela, papel, carvão e nuvem,

pedra, carne de abacate, água de chuva,

unha, montanha, ferro em brasa,

até vocês sentem saudade,

queimadura de primeiro grau,

vontade de voltar pra casa?


Argila, esponja, mármore, borracha,

cimento, aço, vidro, vapor, pano e cartilagem,

tinta, cinza, casca de ovo, grão de areia,

primeiro dia de outono, a palavra primavera,

número cinco, o tapa na cara, a rima rica,

a vida nova, a idade média, a força velha,

até tu, minha cara matéria,

lembra quando a gente era apenas uma ideia?

.................................................................... Sophia de Mello Breyner Andresen

Pátria Por um país de pedra e vento duro

Por um país de luz perfeita e clara

Pelo negro da terra e pelo branco do muro


Pelos rostos de silêncio e de paciência

Que a miséria longamente desenhou

Rente aos ossos com toda a exactidão

Dum longo relatório irrecusável


E pelos rostos iguais ao sol e ao vento


E pela limpidez das tão amadas

Palavras sempre ditas com paixão

Pela cor e pelo peso das palavras

Pelo concreto silêncio limpo das palavras

Donde se erguem as coisas nomeadas

Pela nudez das palavras deslumbradas


– Pedra rio vento casa

Pranto dia canto alento

Espaço raiz e água

Ó minha pátria e meu centro


Me dói a lua me soluça o mar

E o exílio se inscreve em pleno tempo. ....................................................................

Jorge LuIs Borges A un poeta sajón


Tú cuya carne que hoy es polvo y planeta,

pesó como la nuestra sobre la tierra,

tú cuyos ojos vieron el sol, esa famosa estrella,

tú que viviste no en el rígido ayer

sino en el incesante presente,

en el último punto y ápice vertiginoso del tiempo,

tú que en tu monasterio fuiste llamado

por la antigua voz de la épica,

tú que tejiste las palabras,

tú que cantaste la victoria de Brunanburh

y no la atribuiste al Señor

sino a la espada de tu rey,

tú que con júbilo feroz cantaste las espadas de hierro,

la vergüenza del viking,

el festín del cuervo y del águila,

tú que en la oda militar congregaste

las rituales metáforas de la estirpe,

tú que en un tiempo sin historia

viste en el ahora el ayer

y en el sudor y sangre de Brunanburh

un cristal de antiguas auroras,

tú que tanto querías a tu Inglaterra

y no la nombraste,

hoy no eres otra cosa que unas palabras que los germanistas anotan.

Hoy no eres otra cosa que mi voz

cuando revive tus palabras de hierro.


Pido a mis dioses o a la suma del tiempo

que mis días merezcan el olvido,

que mi nombre sea Nadie como el de Ulises,

pero que algún verso perdure

en la noche propicia a la memoria

o en las mañanas de los hombres. *** Jorge Luís Borges A um poeta saxão tradução de Fabio Malavoglia


Tu cuja carne, que hoje é pó e planeta,

pesou como a nossa sobre a terra,

tu cujos olhos viram o Sol, essa famosa estrela,

tu que viveste não no rígido ontem

mas no incessante presente,

no último ponto e ápice vertiginoso do tempo,

tu que em teu monastério foste chamado

pela antiga voz da épica,

tu que teceste as palavras,

tu que cantaste a vitória de Brunanbuhr

e não a atribuíste ao Senhor

mas à espada de teu rei,

tu que com júbilo feroz cantaste as espadas de ferro,

a vergonha do viking,

o festim do corvo e da águia,

tu que na ode militar congregaste

as rituais metáforas da estirpe,

tu que num tempo sem história

vistes no agora o ontem

e no suor e sangue de Brunanbuhr

um cristal de antigas auroras,

tu que tanto amavas a tua Inglaterra

e não a nomeaste,

hoje não és outra coisa que umas palavras que os germanistas anotam.

Hoje não és outra coisa que a minha voz

quando revive tuas palavras de ferro.


Peço a meus deuses ou à soma do tempo

que meus dias mereçam o olvido,

que meu nome seja Ninguém, como o de Ulisses,

mas que algum verso perdure

na noite propícia à memória

ou nas manhãs dos homens. ....................................................................


Emily Dickinson A Word A word is dead

When it is said,

Some say.

I say it just

Begins to live

That day. *** Emily Dickinson Uma Palavra tradução de Fabio Malavoglia É uma morta

Palavra a dita,

Alguém dizia.

Digo que é justo

Ali que vive

Naquele dia. .................................................................... Donizete Galvão

Fiapos


Sei que sei

não sei bem o quê.

Saber não revelado,

ainda envolto em

membrana de placenta.

Lembro-me de que preciso

lembrar de uma coisa

que não deveria ser esquecida.

Lembrar de quê?

De um território que se espraia

em sua mudez de azul?

De uma palavra soprada

em tempos de antes de eu nascer,

que na tarefa de viver

caiu no esquecimento?

Num lapso, às vezes,

parece que me lembro

e a lembrança passa

sem que fique registro.

A luz de Apolo

roça minha cabeça

sem que arrebatá-la

eu possa.

Por ela, esmolo.

Rendo sacrifícios.

Ignora-me.

Vai-se embora

com suas chispas.

Ficam fiapos,

cacos, esboços.

Logo, desmemoriado,

quedo-me cego

e abandonado. ...................................................................... Fabio Malavoglia Ao remetente


amigo missivista / antigo epistolário / paciente escriturário

que perfilou fileiras / a sílaba altaneira / a letra posta à beira

palavra derradeira / descendo essa ladeira

do alto onde assoma / a torre sinaleira / o píncaro luzente

da carta em sua origem / a marca da vertigem

do precipício abaixo / ao pântano onde vigem

as leis da barafunda / a horda sem comando

desmandos coisa torta / inextricável selva / da qual somente a tua

mensagem companheira / pode trazer um mapa / saída pela Lapa

ao cume ao Jaraguá / caminho de armadilha / terreno pontilhado

de corpo estraçalhado / o campo já minado / e a linha de tua pena

traçando o fio sutil / da via decifrada / a dica essa barbada

galope amartelado / em busca da chegada / campeão nessa disputa

do prêmio do recado / que apenas tu envias / e nós faz agraciados ......................................................................





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