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  • Foto do escritorFábio Malavoglia

Ep. 59 - Da boa cozinha

Textos do Episódio

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Vinicius de Moraes Não comerei da alface a verde pétala Não comerei da alface a verde pétala

Nem da cenoura as hóstias desbotadas Deixarei as pastagens às manadas

E a quem maior aprouver fazer dieta.

Cajus hei de chupar, mangas-espadas

Talvez pouco elegantes para um poeta

Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta

Que acredita no cromo das saladas.

Não nasci ruminante como os bois

Nem como os coelhos, roedor; nasci

Omnívoro: deem-me feijão com arroz

E um bife, e um queijo forte, e parati

E eu morrerei feliz, do coração

De ter vivido sem comer em vão. .................................................................... Uma história verdadeira

(contando o milagre, sem contar os santos) Era uma vez um profundo estudioso e praticante espiritual chamado Emanuel que, depois de muitos anos de busca, tinha encontrado um verdadeiro iluminado, um sábio de Deus. Certo dia ele escreveu a seu mestre contando que tinha ido jantar na casa de amigos, e só se falava de trabalhar e fazer os filhos trabalharem para que pudessem obter títulos. Enquanto isso ele estava pensando no símbolo das águias e toda aquela conversa estúpida o aborrecia tremendamente. “Felizmente”, terminava a carta, “a comida estava excelente”. Poucos dias depois ele recebeu a resposta de seu sábio amigo, que se divertiu pensando no jantar na casa daquela gente razoável e séria, que queria fazer trabalhar os filhos e enchê-los de ciências mortas enquanto Emanuel pensava no símbolo das águias. “É um humor muito teu que me encanta”, escreveu o sábio, “sobretudo quando, apesar de tudo, aprecias a boa cozinha, que é uma realidade substancial procedente da verdadeira ciência... .................................................................... Fernando Pessoa um parênteses do poema Tabacaria (Come chocolates, pequena;

Come chocolates!

Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.

Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.

Come, pequena suja, come!

Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!

Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,

Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.) .................................................................... Fernando Pessoa das “Quadras ao Gosto Popular”

Quando tiraste da cesta


Quando tiraste da cesta

Os figos que prometeste

Foi em mim dia de festa,

Mas foi a todos que os deste. *** Ai, os pratos de arroz-doce


Ai, os pratos de arroz-doce

Com as linhas de canela!

Ai a mão branca que os trouxe!

Ai essa mão ser a dela! ....................................................................

Paulo Leminski na mesa... na mesa, súbita, o cacho de uva escuta os passos da chuva

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William Blake Laughing Song (1789) When the green woods laugh with the voice of joy,

And the dimpling stream runs laughing by;

When the air does laugh with our merry wit,

And the green hill laughs with the noise of it;


When the meadows laugh with lively green,

And the grasshopper laughs in the merry scene,

When Mary and Susan and Emily

With their sweet round mouths sing "Ha, ha he!"


When the painted birds laugh in the shade,

Where our table with cherries and nuts is spread:

Come live, and be merry, and join with me,

To sing the sweet chorus of "Ha, ha, he!" *** William Blake Canção do Riso (1789) tradução de Fabio Malavoglia Quando a selva ri jubilosa à voz

E o arroio a rir crispa-se veloz

Quando o ar se ri pelo nosso humor

E alto monte ri verde a tal rumor


Quando vem o verde campear hilário

E o grilo a rir salta no cenário,

E a Maria, Susana e Emília dê

Nas roliças bocas doce “Há, Há, Hê!”


E a irisada sombra d’aves se demora

Sobre a mesa posta de amêndoa e amora,

Vivente e feliz vem a mim você

No encantado doce coro “Há, Há, Hê!” .................................................................... Das histórias do Mulá Nasrudin O sufi, o iogue, o peixe Durante sua estadia na Índia, o Mulá Nasrudin passou diante de uma construção de aparência estranha, diante da qual estava sentado um eremita, com um ar de abstração e calma. Nasrudin pensou em fazer algum tipo de contato. “Certamente” pensou “um filósofo devoto como eu deve ter algo em comum com esse indivíduo virtuoso”.

“Sou um iogue”, disse o eremita, em resposta ao Mulá, “e me dedico ao serviço de todos os seres vivos, em especial dos pássaros e dos peixes”.

“Por favor, permita que me junte a você”, disse Nasrudin, “pois como eu suspeitava, temos algo em comum. Seus sentimentos me cativaram porque um peixe certa vez salvou minha vida”.

“Que coisa extraordinária”, exclamou o iogue, “ficarei encantado em recebê-lo em nosso círculo. Em todos estes anos de devoção à causa dos animais, nunca tive o privilégio de entrar em comunhão tão íntima com eles quanto você! Salvou sua vida! Isso confirma totalmente nossa doutrina de que todo o reino animal está interligado!”

Assim, Nasrudin sentou-se com o iogue por algumas semanas contemplando o umbigo e aprendendo diversas ginásticas curiosas.

Um dia, finalmente, o iogue pediu: “Caro amigo, caso se sinta capaz, agora que nos conhecemos melhor, poderia me comunicar sua experiência suprema com o peixe salvador? Eu ficaria muito honrado”

“Não tenho tanta certeza disso”, respondeu o Mulá, “agora que conheço melhor suas ideias”. Mas o iogue o pressionou com lágrimas nos olhos, chamando-o de “mestre” e esfregando a testa no chão diante dele.

“Muito bem, se insiste”, concordou Nasrudin, “embora eu não esteja muito seguro que você esteja pronto, para usar sua maneira de falar, a ouvir a revelação que tenho a fazer. O peixe realmente salvou minha vida. Eu estava a ponto de morrer de fome quando o pesquei. Graças ao peixe tive o que comer por três dias”. ....................................................................

Cecília Meireles Marcha

As ordens da madrugada

romperam por sobre os montes:

nosso caminho se alarga

sem campos verdes nem fontes.

Apenas o sol redondo

e alguma esmola de vento

quebram as formas do sono

com a idéia do movimento.


Vamos a passo e de longe;

entre nós dois anda o mundo, com alguns vivos pela tona,

com alguns mortos pelo fundo.

As aves trazem mentiras

de países sem sofrimento.

Por mais que alargue as pupilas,

mais minha dúvida aumento.


Também não pretendo nada

senão ir andando à toa,

como um número que se arma

e em seguida se esboroa,

– e cair no mesmo poço

de inércia e de esquecimento,

onde o fim do tempo soma

pedras, águas, pensamento.


Gosto da minha palavra

pelo sabor que lhe deste:

mesmo quando é linda, amarga

como qualquer fruto agreste.

Mesmo assim amarga, é tudo

que tenho, entre o sol e o vento:

meu vestido, minha música,

meu sonho e meu alimento.


Quando penso no teu rosto,

fecho os olhos de saudade;

tenho visto muita coisa,

menos a felicidade.

Soltam-se os meus dedos yristes,

dos sonhos claros que invento.

Nem aquilo que imagino

já me dá contentamento.


Como tudo sempre acaba,

oxalá seja bem cedo!

A esperança que falava

tem lábios brancos de medo.

O horizonte corta a vida

isento de tudo, isento…

Não há lágrima nem grito:

apenas consentimento. ......................................................................


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