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  • Foto do escritorFábio Malavoglia

Ep. 57 - O ouro da infância

Episódio 57 O OURO DA INFÂNCIA

Textos do Episódio

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Ruy Belo Algumas proposições com crianças A criança está completamente imersa na infância

a criança não sabe que há-de fazer da infância

a criança coincide com a infância

a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono

deixa cair a cabeça e voga na infância

a criança mergulha na infância como no mar

a infância é o elemento da criança como a água

é o elemento próprio do peixe

a criança não sabe que pertence à terra

a sabedoria da criança é não saber que morre

a criança morre na adolescência.


Se foste criança diz-me a cor do teu país.

Eu te digo que o meu era da cor do bibe

e tinha o tamanho de um pau de giz.

Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez

Ainda hoje trago os cheiros no nariz.


Senhor que a minha vida seja permitir a infância

embora nunca mais eu saiba como ela se diz. ....................................................................

Alberto Caieiro (Fernando Pessoa)

A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas

Age como um deus doente, mas como um deus.

Porque embora afirme que existe o que não existe

Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,

Sabe que existir existe e não se explica,

Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,

Sabe que ser é estar em algum ponto

Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer. .................................................................... Cecília Meireles Para ir à Lua

Enquanto não têm foguetes

para ir à Lua

os meninos deslizam de patinete

pelas calçadas da rua.


Vão cegos de velocidade:

mesmo que quebrem o nariz,

que grande felicidade!

Ser veloz é ser feliz.


Ah! se pudessem ser anjos

de longas asas!

Mas são apenas marmanjos. ....................................................................


Fernando Pessoa A criança que fui chora na estrada A criança que fui chora na estrada.

Deixei-a ali quando vim ser quem sou;

Mas hoje, vendo que o que sou é nada,

Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou

A vinda tem a regressão errada.

Já não sei de onde vim nem onde estou.

De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar

Um alto monte, de onde possa enfim

O que esqueci, olhando-o, relembrar, Na ausência, ao menos, saberei de mim,

E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar

Em mim um pouco de quando era assim. ..................................................................... Fernando Pessoa

Quando as crianças brincam Quando as crianças brincam

E eu as oiço brincar,

Qualquer coisa em minha alma

Começa a se alegrar.


E toda aquela infância

Que não tive me vem,

Numa onda de alegria

Que não foi de ninguém.


Se quem fui é enigma,

E quem serei visão,

Quem sou ao menos sinta

Isto no coração.

.................................................................... Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) Dactilografia Traço sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,

Firmo o projecto, aqui isolado,

Remoto até de quem eu sou.


Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,

O tic-tac estalado das máquinas de escrever.

Que náusea da vida!

Que abjecção esta regularidade!

Que sono este ser assim!


Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros

(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),

Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,

Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,

Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.


Outrora.


Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro.

O tic-tac estalado das máquinas de escrever.


Temos todos duas vidas:

A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,

E que continuamos sonhando, adultos num substrato de névoa;

A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,

Que é a prática, a útil,

Aquela em que acabam por nos meter num caixão.


Na outra não há caixões, nem mortes,

Há só ilustrações de infância:

Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;

Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.

Na outra somos nós,

Na outra vivemos;

Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;

Neste momento, pela náusea, vivo na outra...


Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro.

Ergue a voz o tic-tac estalado das máquinas de escrever. .................................................................... Sophia de Mello Breyner Andresen Cidade Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,

Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,

Saber que existe o mar e as praias nuas,

Montanhas sem nome e planícies mais vastas

Que o mais vasto desejo,

E eu estou em ti fechada e apenas vejo

Os muros e as paredes, e não vejo

Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida

E que arrastas pela sombra das paredes

A minha alma que fora prometida

Às ondas brancas e às florestas verdes. .................................................................... Sophia de Mello Breyner Andresen Reza da manhã de maio Senhor, dai-me a inocência dos animais

Para que eu possa beber nesta manhã

A harmonia e a força das coisas naturais.

Apagai a máscara vazia e vã

De humanidade,

Apagai a vaidade,

Para que eu me perca e me dissolva

Na perfeição da manhã

E para que o vento me devolva

A parte de mim que vive

À beira dum jardim que só eu tive. .................................................................... Sophia de Mello Breyner Andresen Um dia

Um dia, gastos, voltaremos

A viver livres como os animais

E mesmo tão cansados floriremos

Irmãos vivos do mar e dos pinhais.


O vento levará os mil cansaços

Dos gestos agitados irreais

E há-de voltar aos nosso membros lassos

A leve rapidez dos animais.


Só então poderemos caminhar

Através do mistério que se embala

No verde dos pinhais na voz do mar

E em nós germinará a sua fala. .................................................................... Hermes Fontes A Fonte da Mata

Depois de longa ausência e penosa distância,

vi a fonte da mata,

de cuja água bebi, na minha infância.

E que melancolia

nessa emoção tão grata!

Ver — constância das coisas, na inconstância…

ver que a Poesia é uma segunda infância,

e que toda Poesia…

Vem da fonte da mata… .................................................................... Emily Dickinson

We learned the Whole of Love We learned the Whole of Love –

The Alphabet – the Words –

A Chapter – then the mighty Book –

Then – Revelation closed –


But in each Other’s eyes

An Ignorance beheld –

Diviner than the Childhood’s

And each to each, a Child –


Attempted to expound

What neither – understood –

Alas, that Wisdom is so large –

And Truth – so manifold! *** Emily Dickinson O Amor Inteiro – aprendemos

tradução de Fabio Malavoglia O Amor Inteiro – aprendemos –

O Alfabeto – as Palavras –

Os Capítulos – e o potente Livro –

Até – o Apocalipse cerrado –


Mas nos olhos Um do Outro

Uma Ignorância se mirou –

Mais Divina que a da Infância,

E um no outro, uma Criança –


Tentativa – de explanar

O que tampouco – é entendido –

Ah, quão vasto o Saber –

E a Verdade – das mil Folhas!

 


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